Bipolaridade na infância: desafios diagnósticos e terapêuticos

 


O transtorno afetivo bipolar (TAB) é uma condição psiquiátrica de curso crônico e recorrente, caracterizada pela ocorrência de episódios de mania, hipomania e depressão. Embora amplamente descrito em adultos, sua manifestação na infância permanece um tema controverso na literatura científica. Estudos epidemiológicos apontam que o início típico do transtorno ocorre entre os 15 e 19 anos, sendo rara a ocorrência de episódios maníacos antes dos 12 anos (NICE, 2014; MSD Manuals, 2023). 

A prevalência vitalícia do espectro bipolar em adolescentes varia de 0 a 3%, de acordo com diferentes definições diagnósticas, e em crianças pré-púberes permanece ainda menor (NIMH, 2023). Dessa forma, pode-se afirmar que a bipolaridade na infância é uma condição incomum, mas que, quando presente, demanda atenção clínica cuidadosa. O processo diagnóstico na infância é particularmente desafiador devido à sobreposição sintomatológica com outros transtornos prevalentes. 

Os episódios maníacos em crianças tendem a se manifestar mais por irritabilidade intensa do que por euforia, contrastando com a apresentação clássica em adultos (NIMH, 2023). Já os episódios depressivos envolvem humor persistentemente deprimido ou irritável, anedonia, fadiga, alterações de sono e apetite, além de prejuízo funcional. 

A diferenciação do TAB em relação a outras condições é um ponto crítico: no TDAH, os sintomas de desatenção e hiperatividade são crônicos e não episódicos, enquanto no Transtorno Disruptivo da Desregulação do Humor (TDDH) a irritabilidade é persistente e não delimitada em episódios, como ocorre no TAB (APA, 2013; Leibenluft, 2011). Esse aspecto fenomenológico do curso episódico é, portanto, uma chave diagnóstica fundamental.

Desafio para psicólogos

Para o psicólogo, os desafios residem não apenas na diferenciação entre condições, mas também na necessidade de avaliação longitudinal, envolvendo múltiplos informantes – família, escola e cuidadores – de forma a captar a evolução dos sintomas ao longo do tempo. Instrumentos estruturados, como a K-SADS-PL, adaptada ao português, são recursos valiosos para a sistematização da anamnese e a avaliação de critérios diagnósticos em crianças e adolescentes (Brasil et al., 2013).

Contudo, mesmo com ferramentas padronizadas, o risco de superdiagnóstico e de rotulação precoce permanece significativo, especialmente porque o desenvolvimento infantil é marcado por variações emocionais e comportamentais que podem simular quadros patológicos (IACAPAP, 2020). A literatura destaca, portanto, a necessidade de cautela clínica e de uma postura crítica frente a diagnósticos em faixas etárias muito precoces.

No que concerne ao tratamento, a abordagem deve ser multimodal e interdisciplinar. Intervenções psicossociais ocupam papel central, incluindo psicoeducação familiar, estabelecimento de rotinas regulares de sono e o monitoramento de sinais precoces de recaída. Estratégias psicoterápicas, como a Family-Focused Therapy (FFT) e adaptações da terapia cognitivo-comportamental, têm mostrado eficácia na redução de sintomas e prevenção de recaídas em populações jovens (Miklowitz et al., 2004; Fristad et al., 2015).

Nos casos de maior gravidade, sobretudo quando há episódios maníacos ou mistos, a farmacoterapia torna-se necessária. Ensaios clínicos em crianças e adolescentes sugerem benefícios do uso de antipsicóticos de segunda geração, como risperidona e aripiprazol, além do lítio, que permanece como estabilizador de humor clássico e com evidência consistente (AACAP, 2007; NICE, 2014). O uso de fármacos, entretanto, exige monitoramento rigoroso dos efeitos colaterais metabólicos e neuroendócrinos, aspecto crítico no manejo dessa faixa etária.

No Brasil

No contexto brasileiro, o cuidado com crianças que apresentam sintomas sugestivos de bipolaridade deve se articular entre diferentes níveis de atenção em saúde. O primeiro contato geralmente ocorre na atenção primária ou em consultas pediátricas, que encaminham casos complexos para avaliação especializada. No Sistema Único de Saúde (SUS), os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i) são serviços de referência para o atendimento de quadros graves e persistentes, nos quais é possível contar com equipes multiprofissionais que integram psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais.

No setor privado, a busca deve priorizar o acompanhamento por psiquiatra da infância e adolescência em associação com psicólogo clínico especializado, de modo a compor um plano terapêutico integrado e ajustado ao contexto familiar e escolar.

Em síntese, embora rara, a bipolaridade na infância exige do psicólogo e demais profissionais de saúde mental uma postura diagnóstica prudente, sustentada em avaliação longitudinal e interdisciplinar, bem como uma abordagem terapêutica abrangente, que combine psicoterapia, suporte familiar e, quando necessário, farmacoterapia especializada. O risco de rotulação precipitada deve ser constantemente ponderado frente à necessidade de intervenção precoce, sendo o manejo ético e baseado em evidências o caminho para garantir melhor prognóstico e qualidade de vida a esses pacientes em desenvolvimento.

Referências:

American Psychiatric Association. DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2013.

AACAP – American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. Practice Parameter for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Bipolar Disorder. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry, 46(1), 107–125, 2007.

Brasil, H. H. A., Bordin, I. A., & Mari, J. J. Entrevista diagnóstica estruturada K-SADS-PL: versão brasileira. Revista Brasileira de Psiquiatria, 2013.

Fristad, M. A., Verducci, J. S., Walters, K., & Young, M. E. Impact of multifamily psychoeducation groups for childhood mood disorders. Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology, 38(3), 422–432, 2015.

IACAPAP – International Association for Child and Adolescent Psychiatry and Allied Professions. Textbook of Child and Adolescent Mental Health. 2020.

Leibenluft, E. Severe mood dysregulation, irritability, and the diagnostic boundaries of bipolar disorder in youths. American Journal of Psychiatry, 168(2), 129–142, 2011.

Miklowitz, D. J., et al. Family-focused treatment for adolescents with bipolar disorder. Journal of Affective Disorders, 82, S113–S128, 2004.

MSD Manuals. Transtorno bipolar em crianças e adolescentes. 2023.

NICE – National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management (CG185). 2014. 

NIMH – National Institute of Mental Health. Bipolar Disorder in Children and Teens. 2023.

Você pode gostar

0 comments