O que Victoria Mori revela sobre o transtorno borderline em Invejosa, da Netflix

 


A série Invejosa, da Netflix, apresenta ao público a intensa e instável Victoria Mori, personagem cuja trajetória emocional chama atenção por suas dificuldades afetivas, impulsividade e relacionamentos turbulentos. Embora a obra seja ficcional e não declare diagnosticar sua protagonista, muitos dos comportamentos exibidos por Victoria dialogam com características frequentemente associadas ao Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), também conhecido como Transtorno de Personalidade Limítrofe. A análise da personagem sob essa perspectiva permite refletir sobre como narrativas audiovisuais retratam sofrimentos emocionais complexos e, ao mesmo tempo, contribuem para a compreensão do público sobre temas de saúde mental.

O que é o Transtorno de Personalidade Borderline?

O TPB é marcado por um padrão persistente de instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem e nos afetos, além de impulsividade acentuada. Segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5), indivíduos com esse transtorno tendem a apresentar medo intenso de abandono, alternância entre idealização e desvalorização das pessoas próximas, comportamentos impulsivos potencialmente autodestrutivos, além de fortes oscilações de humor (APA, 2014). Ao observar Victoria ao longo da série, nota-se que a trama explora justamente esses eixos principais: suas relações são marcadas por intensidade extrema, proximidade imediata e rupturas abruptas.

Como ele se apresenta em Vicky?

A personagem demonstra, por exemplo, grande dificuldade em lidar com rejeições – ou mesmo com a possibilidade imaginada de rejeição. Pequenos gestos são frequentemente interpretados por ela como sinais de desvalorização, desencadeando reações emocionais desproporcionais. Esse padrão corresponde ao que Linehan (1993) descreve como “sensibilidade emocional ampliada”, comum em pessoas com TPB, que experimentam suas emoções de forma intensa e demoram mais tempo para retornar a um estado de calma. 

Na narrativa, as reações de Victoria são frequentemente impulsivas, movidas por medo e por tentativas desesperadas de preservar vínculos, ainda que de modo disfuncional. Outro elemento recorrente no comportamento da protagonista é a oscilação de identidade. Victoria parece flutuar entre diferentes versões de si mesma, ajustando sua personalidade ao contexto ou às pessoas que admira - comportamento que pode ser entendido, em termos clínicos, como instabilidade da autoimagem. Em vez de possuir um senso de identidade coeso, ela demonstra uma fragilidade interna que a faz buscar validação constante no olhar do outro. 

Essa dependência afetiva gera relações marcadas por idealização: pessoas inicialmente colocadas em um pedestal rapidamente se tornam alvos de raiva, ciúme e ressentimento quando deixam de suprir suas expectativas emocionais. A série também aborda aspectos importantes sobre impulsividade e comportamentos de risco, traços que podem aparecer em pessoas com TPB. 

Impulsos ligados ao controle, à manipulação ou a tentativas de manter vínculos a qualquer custo são apresentados ao longo da trama. Embora o roteiro dramatize e amplifique essas ações para fins narrativos, muitas delas evocam a dificuldade de autorregulação emocional descrita por diversos autores no estudo do transtorno.

Este não é um diagnóstico

É importante destacar que, apesar das semelhanças entre Victoria Mori e os critérios diagnósticos do TPB, personagens de ficção são construídos para produzir impacto dramático e nem sempre representam com fidelidade as experiências de pessoas reais. Ainda assim, séries como Invejosa podem abrir espaço para conversas importantes sobre saúde mental, especialmente quando retratam comportamentos que costumam ser estigmatizados. 

A humanização dessas vivências - mesmo que através de personagens controversas - contribui para maior compreensão social do sofrimento psíquico e para o reconhecimento de que impulsividade, instabilidade e medo do abandono costumam ter raízes profundas na história emocional de uma pessoa.

Portanto, relacionar Victoria Mori ao Transtorno de Personalidade Borderline não implica rotulá-la, mas utilizar sua narrativa como ponto de partida para refletir sobre padrões emocionais complexos. A série evidencia, de forma dramatizada, o quanto a instabilidade afetiva pode impactar o modo de se relacionar e o quanto o sofrimento interno pode se expressar através de comportamentos intensos. Para profissionais da psicologia, obras como essa oferecem material simbólico valioso para discutir saúde mental de maneira acessível ao grande público, combatendo preconceitos e promovendo empatia.

Referências:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

LINEHAN, M. M. Cognitive-Behavioral Treatment of Borderline Personality Disorder. New York: Guilford Press, 1993.

MILLER, J. et al. Instabilidade emocional e transtorno de personalidade borderline: implicações clínicas. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 40, n. 3, p. 309-317, 2018.

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